sexta-feira, 29 de abril de 2016

PROSA - BELOS SONHOS


BELOS SONHOS


Quais os seus mais belos sonhos?
― Diversos...
E o maior?
― O mais belo foi o reencontro, inesquecível, maravilhoso. Foi a visão da mulher amada na sua primeira vez parecendo que surgia repentinamente num dia nublado e, de repente, eis que o Sol surgiu com toda a sua força, seu poder, seu esplendor.
E a sua reação?
― Sorrir sem parar... Abraçar sem largar... Amar tão intensamente como o esplendor do Sol.

PROSA - CORAÇÃO AMANTE



CORAÇÃO AMANTE


 A natureza criou o coração em sua natureza; perfeito, inabalável diante das emoções mais intensas da vida; das alegres e tristes, naquelas dos desafios extremos. E viu que era bom, forte, tornando-o, então, a sede do amor.
Mas...
Mas a natureza;  ― que após um primeiro olhar, que após um primeiro sorriso e, do que falar então após dum primeiro beijo ― ela descobriu que o coração amante pode explodir sendo tal qual o Big Bang pra àquela história de amor: Uma intensa explosão, em expansão, que ressoará até que somente uma morte consiga que se cale.
A partir de então o coração outrora forte torna-se a sede da tristeza até a chegada da sua própria morte.

PROSA- A NEGRITUDE DA SUA PELE



A NEGRITUDE DA SUA PELE

CANCÃO PRA JULIANA – V

Gosto de mergulhar na negritude da sua pele.
Gosto de vê-la sobre as dobras do lençol azul-mar como se você estivesse simplesmente descansando em águas serenas dum oceano, sugerindo-me um convite a entrelaçar-me contigo e permanecer horas a nado, onde, de repente, em momentos deveras ondeados sua pele mais se escurece e noutros momentos ― durante rara plenitude da nossa paz momentânea pela intensa troca de carícias ― a sua negra pele reflete os claros duma superfície calma tocada pelos raios do Sol. Parecemos que imergimos, aquecemo-nos de desejos e logo mais mergulhamos outra vez na profundidade dos momentos mais secretos.

Ah! gosto sim de mergulhar na negritude da sua pele sobre as dobras do lençol azul-mar ― cheirando; ora suavemente alfazema, outras vezes alecrim dourado, e tantas mais camomila, ―  que religiosamente colocamos às terças-feiras assim que a noite se mostra criança, que as estrelas se tornam convites libidinosos e a Lua faz o seu beiço-de-bater-bolo de tanta inveja por não enxergar a nossa história de amor através da cortina cerrada aos olhares curiosos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

CRÔNICA - O SUSTO





O SUSTO


Eu muito gostava de todo dia ter que realizar a viagem nos trens de subúrbios para o meu local de trabalho. O percurso realizado sempre entre a cidade de Jundiaí e a nossa capital; São Paulo. Até os dias de hoje não existe um local tão imutável — alguns dizem que são os ônibus, mas eu não concordo — para que muitos e muitos trabalhadores lutem ferrenhamente para dividir o mesmo espaço sendo que é nessa luta que se acaba fazendo inimigos ou amigos.
Mas deixo a todos uma lição preciosa:
— Para se criar amigos ou inimigos nesse meio de transporte bastava a formação de grupos: Para o nosso grupo felizmente prevalecia; sempre a amizade e aos inimigos a indiferença. Com essa ideologia era um pulo para que muitos viessem ao nosso lado sendo, o grupo, então, sempre ativo e alegre: “Para cada dia basta o seu mal”. Não adianta nunca levantar cada dia para ser um gladiador.
E para passar o tempo evitando que a viagem se tornasse estressante os grupos iam se formando pela sua afinidade. Alguns jogavam palitos; outros o jogo de dama, diversos escolhiam as cartas de baralho, boa parte preferia a leitura e muitos se limitavam a observar: como eu sempre fazia...
Então:
— Nós, os observadores, como uma regra constitucional, tínhamos que atentamente colecionar gestos e trejeitos. Era a regra básica a ser respeitada: Não poderia jamais ser de maneira jocosa ou fofoqueira. O objetivo era visar o resultado em piadas de bom-gosto, mas sempre veladas para o grupo como poderia se transformar também em assuntos que só receberiam a sua importância no seu tempo oportuno.
Claro que como bons brasileiros que somos as mulheres seriam as mais reparadas pela sua beleza ou, pela sua falta ou, pela simpatia que seria sempre somente uma terceira opção.
Ressalto para vocês: A parada entre a maioria das estações era cerca de um minuto; quanto muito. E nesse tempo, certa vez, aconteceu um fato que eu acho ser merecedor dessa crônica:
— Eu fui avisado pelo grupo a observar uma linda mulher que estava na plataforma. Ela aguardava o seu trem com os seus cabelos longos, olhos azuis, corpo esbelto. Aquele tipo de mulher que levou a se confirmar as palavras do poeta que a beleza é fundamental. Todos os homens do grupo rezavam até para que a parada levasse horas e assim poderíamos juntar todos os dados possíveis para que comentássemos por dias sobre essa visão estonteante; com certeza divina...
Mas, graças a esse mesmo divino Criador, agradecemos pela parada ser por pouco tempo e explico o porquê para o seu pronto entendimento:
De repente os olhos da menina esbugalharam assustadoramente. Ao mesmo tempo a boca se contorceu para o lado direito quase alcançando a sua orelha. Em toda a sua pele em volta dos olhos se formou sulcos. Pensamos até que ela tinha nos feito careta para nos repreender pela indiscreta observação! Porém... Foi por décimos de segundos e, após milésimos de repouso, outro espasmo semelhante e concluímos: Era o famoso cacoete que pegou todos em hilariante surpresa...
Que susto!
Estupefatos...
Estupefator mais que provocante.
E...
E com a composição já em andamento todos se entreolharam. Conforme o ritmo do sacolejar das rodas nos trilhos iniciaram os risos e antes da composição alcançar a sua velocidade máxima já estávamos todos gargalhando.
E eu concluí imediatamente...
— Se o poeta estivesse presente ele com certeza diria entre uma dose e outra que a beleza é fundamental, sim; mas sem cacoetes.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

CRÔNICA - CRIANÇAS E FUTURO


CRIANÇAS E FUTURO

  
O carro para no semáforo.
O sinal vermelho se faz presente.
Sempre existirá em nossa vida um alerta de pare:
“Pare, pense e reflita.” Parece dizer sempre: “Você não veio ao mundo para deixá-lo pior do que o encontrou.” Muitas vezes simplesmente não damos a devida atenção, quase sempre assim fazemos. A vida atribulada nos tornam insensíveis ao que nos rodeia.
E a luz vermelha ainda se fazendo presente...
Logo dois meninos se aproximam carregando caixas com doces:
― Vai uma balinha aí moço? ― foram dizendo com todos os pulmões. Pulmões, porém, que ainda aparentam fortes pela pura necessidade de sobrevivência. Por quê? Porque os estômagos já estão dilacerados pela mísera comida diária, a pele dilacerada pela fuligem dos automóveis e pela falta de banho, afinal, os chafarizes há muito foram desativados, enquanto seus corpos pequenos são aproveitados por pedófilos em troca de pequenas moedas.
― Vai uma balinha aí moço? Ajuda eu, é só um real.
Um real! A dignidade não vale um real. A vida não vale um real. Faço menção de tirar do bolso alguma coisa. O quê? Uma moeda ou uma esperança pra eles, quem sabe? Ou talvez a minha falta de cidadania? Com certeza:
— Não somos todos culpados de existirem esquinas, mas somos todos culpados por existirem esquinas com meninos-de-rua através da nossa ausência nos problemas do país, dos votos eleitorais sem nenhum critério, da preocupação constante em ser aquele com vantagem sempre.
E...
A minha ação é bruscamente interrompida pelo taxista que imediatamente fecha as janelas deixando aos dois sem ação provocando um intenso constrangimento. Sinto-me também constrangido, mas nesse tempo de tantos assaltos não posso culpar a atitude desse trabalhador. Ainda mais que ele acabara de me dizer que fora assaltado quatro vezes durante o trabalho e por outras duas na sua residência. Na verdade a violência também sempre acaba nos tornando insensíveis para tudo o que nos rodeia.
Mas... Os olhos azuis de um dos meninos me paralisam mostrando na sua cativante cor alguma lição. E ela ocorre...
— A lição me vem com uma misteriosa ausência de sentidos físicos, mas não mental... Imediatamente sou levado pela imaginação ao futuro e vi o planeta Terra destruído pela insensatez do homem visualizando claramente que habitávamos o espaço sideral em naves gigantescas, milhares delas para cada nação sobrevivente e cada uma com a sua finalidade.
E antes de poder lutar para voltar para a crua realidade:
― Existiam as naves-metrópoles, as laboratoriais e de pesquisas, as agricultáveis, como também as escolares entre tantas outras sempre protegidas por modernas e poderosas naves militares para a defesa. E para circular entre todas usávamos pequenas, silenciosas e rápidas aeronaves que serviam de táxis.
Fiquei atônito ao ver a clareza da visão que vivenciei...
E fascinado eu fiquei:
— Mas o que mais me fascinou em toda essa imaginação futurista é que não existiam ruas e como consequência não existia meninos e meninas que hoje se humilham pelas esquinas sem o mínimo de esperança no futuro. Estavam todos felizes acompanhados de pessoas interessadas no bem-estar de cada um. E cada um sorria aquele sorriso que só tem; os que têm um futuro certo pela frente.
Eu quis questioná-los. Perguntar se poderia com eles ficar para brincar e aprender tudo novamente. Ansiava não perder uma nova oportunidade de me tornar algo, renascendo.
Mas...
Na abertura do semáforo o movimento do carro me trás de volta à realidade e ao azul daqueles olhos tão pequenos, tão pequenos como os seus donos que agora vão ficando nas esquinas das suas próprias vidas. Mas com certeza eu retomo a realidade sentindo no meu íntimo uma enorme necessidade de contribuir para modificar a sorte desses meninos que, como já foi falado por muitos, serão os pais dos homens. E com certeza serão...
 Que oxalá permita Deus que eu encontre forças e condições para conseguir algo tão nobre.
 Eu lutarei para não deixar que tudo fique só na imaginação.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

PROSA - A CRIAÇÃO DE SACI




A CRIAÇÃO DE SACI


Jundiaí, 9 de fevereiro 2015.

Querida prima, Marli.

Marli Macrino eu e o primo Rogério Faria passamos um fim de semana maravilhoso. Foi um passeio que bem jus faz ao ditado; vivendo e aprendendo: Que maravilhosa é a vida que nos ensina cada vez mais.
Sei que você é muito curiosa e rapidamente entro nas explicações necessárias evitando o seu desespero em logo tudo saber. Eu e ele fomos convidados a conhecer uma fazenda, impar, diferente e interessante de um amigo dele.
Que diferença tem a tal fazenda? Simplesmente é uma fazenda criadora de Sacis. Aprendemos tanto. Por exemplo:
— Você sendo uma professora tão experiente sabe que o Saci que nasce com a perna direita é macho?
Ou...
— O Saci que nasce com a perna esquerda é fêmea?
E...
— Que participam anualmente de competição para saberem o campeão de melhor trança em crina de cavalo?
Além...
— Que entre eles é ofensa emprestar fumo para o cachimbo?
Interessante não é? Inclusive já falamos com o proprietário sobre você e ele afirmou que ficará contente em recebê-la juntamente com os seus alunos para uma excursão.
Mas, querida prima, algo nos chateou: Soubemos que ultimamente têm nascido muitos sacizinhos com um defeito genético que tem colocado o criadouro à beira da falência; cresce cada vez mais o nascimento de Sacis com duas pernas. O fazendeiro está desesperado. Na verdade o amigo do primo é mesmo azarado já que será o seu segundo negócio frustrado, sendo que, no anterior, ele investiu todo o dinheiro num circo só de anãos e depois de seis meses, todos, começaram a crescerem.

Mas foi um dia maravilhoso que eu e o primo passamos juntos e prometemos levá-la da próxima vez em nossos passeios. São ótimos, pois me ajudam a combater o estresse e as suas lembranças amenizam a minha insônia que persiste em tomar conta das minhas noites.
Agora tenho que parar. O enfermeiro chegou com uma injeção e com a camisa de força.
Beijos carinhosos. Quando puder venha me visitar, estou na Ala Nove. É perto da sua que é a Dez, embora seja forte o boato que mudaram você para a Dezenove o que seria até bom, assim você ficaria próxima à Ala Vinte que é a do primo Rogério e do seu amigo fazendeiro que cria os Sacis.
Como não tenho mais nada a lhe contar, menina, deixo o meu abraço afetuoso.
E quando voltar a me lembrar de quem eu sou prometo-lhe que voltarei a assinar as cartas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

PROSA POÉTICA - SÚPLICAS D'ÁFRICA


SÚPLICAS D’ÁFRICA

  

O ponto de encontro é em algum lugar entre Cabo Verde e Boa Esperança. Elas chegam do interior como sendo as Brisas-Coletoras que foram buscar algo junto aos sudaneses como iorubás, nagôs, geges e minas e...
Tornaram-se preciosas Brisas-Coletoras também para os  fulas e mandes, além de que...
Tornaram-se Coletoras das indagações Banto vindas dos angolas, congos, cambindas, benguelas e moçambiques.
São, na realidade, Coletoras-Mensageiras das perguntas que nunca se calam, dos lamentos eternamente doloridos, das indagações aflitas e perenes da nação primaz na criação do planeta Terra.
Assim que cumpre o papel necessário elas se ajuntam e vorticelizam, vorticosas se fazem porque então se faz necessário tornar tal qual vento sagrado só que dessa vez sem as velas negreiras para soprar, sem corpos mortos para se; ver jogando e jogado ao mar.
Elas precisam se tornar único vento muito forte, pois eis que se soprará pelo dolorido caminho antigamente percorrido e carregado pelo peso da verdade dos povos escravizados pelos próprios patrícios gananciosos; pelo peso das indagações dos seus descendentes que os aguardam esperançosos pelo um possível retorno. Terá que ser forte o suficiente para levantar as ondas da procura até agora incerta do perguntar: Onde estão? Como estão? Quem? — Os meus eternos filhos, ora! — responde a mãe África sempre esperançosa.
Deverá se tornar sempre forte vento, pois estará carregado também das lágrimas do outrora, lágrimas que os séculos jamais secarão; aquelas lágrimas tornadas densas, eis que, nunca rolaram de alegria pelas faces negras já que era necessário se mostrar, embora sendo escravo, ser um ser resoluto perante um destino desconhecido e amedrontador.
E ele agora como vento forte, então, se lança mar adentro ouvindo os gritos das injustiças seculares impregnados no passado cumprindo assim o destino: Chegar à costa e bater no pau-brasil que nunca se enverga. Logo...

CRÔNICA - A DOR DA FÉ



(crônica)


Ainda dói o dedo da prima Nina estando ainda chorosa e com razão, já que o seu machucado ainda necessita de cuidados. Aprendemos duas coisas com o seu sofrimento: Onde um cão come não coloque a sua colher e ou em briga de cães ferozes tal qual briga de casal também não meta a mesma colher.
Mas o fato acontecido com ela me remete à uma lição de vida tão bem ministrada por um grande amigo, padre de profissão, jogador de futebol amador e adorador do jogo de truco. Como eu o conheci? Foi num convite de um vizinho há cerca de seis anos para completar o número de participantes num joguinho de futebol de salão. Claro que era apenas uma confraternização de amigos e um deles apresentou o seu primo padre com quarenta e nove anos de idade que eu vou chamá-lo de Mauro evitando revelar sua identidade por puro respeito, pois ele atualmente se encontra no Vaticano seguindo a sua vida missionária, convidado que foi pela equipe do atual papa. E depois de vários encontros eu e ele já éramos amigos e exímios criadores de piadas.

O Padre Mauro é uma peça impar e, para com ele brincar, eu dizia que no tabuleiro de xadrez de Deus ele é um peão, porém, a mais gozada e apaixonante figura. Mauro sempre ria da minha brincadeira e, na verdade ele ri de tudo e de todos, sem ferir ninguém com suas piadas e brincadeiras. Durante o jogo a cada gol que fazíamos ele escolhia um adversário e o convidava para uma confissão dizendo; “eu sei o que você pensou assim que levou o gol e precisa então se confessar”. E ria, também, quando levava um gol falando pra bola que iria depois benzê-la. Mauro era o nosso goleiro e até um bom goleiro.
Depois do jogo, em uma casa pré-escolhida, ocorria o churrasco e vez ou outra o sacerdote nos dizia que estava de olho no primeiro que pecasse com a gula. Mas ele ficava mesmo era de olho no jogo de truco que costumeiramente aconteceria. Mauro não falava palavrão, mas gritava como um pecador e infernizava a todos os perdedores constantemente fazendo, porém, uma cara de autoridade para frustradamente tentar evitar que fosse escorraçado com o mesmo veneno. Ele jamais cometeria o pecado da gula, mas jogar era com ele mesmo.

domingo, 11 de outubro de 2015

PROSA POÉTICA - CANÇÃO PARA JULIANA




CANÇÃO PARA JULIANA

Eu tenho um caminho a ser percorrido
Em um mundo que me rodeia,
Para com um amor a ser vivido.
Então eu caminho;
Pois ele é você.
Entrelaço-me com o mundo;
Pois ele é você.
Vivo intensamente o amor;
Pois ele é somente você.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

PROSA POÉTICA - MÃE



MÃE


Deus é Observador,
Assim se obrigando a ser
Por ter nos dado o livre-arbítrio
E, não querendo voltar atrás,
Teve que com a sua criação
A sua herança dividir:
Chamando-se então Filhos.

Deus é narcisista
Tudo se criando belo à sua imagem:
Criou-se Mundos e Leis;
Criou-se Natureza misteriosa e cativante;
Criou-se Universo caos mais organizado;
Criou-se Águas cristalinas pra se refletir;
Foi mais além e...
Criou-se Brilhos de estrelas como sendo o seu sorriso;
Criou-se Sóis como sendo os seus olhos atentos.

sábado, 3 de outubro de 2015

CRÔNICA - A CRÔNICA DA MORTE HERDADA




A CRÔNICA DA MORTE HERDADA


Estava lendo um artigo, até triste, sobre um estudo feito pela medicina sobre o grande número em todo o mundo de suicídios por causa das doenças adquiridas pelo tronco familiar.
No início da leitura me senti triste pela estatística apresentada. Logo em seguida enviei compaixão para àqueles que herdam doenças incuráveis e que desde o seu nascimento estão fadados à dor da expectativa de uma vida infrutífera. Depois já comecei a não concordar o porquê de tanto sofrimento e, achando-o até desnecessário.
Pronto! muitos já me chamam de insensível diante do sofrimento alheio. Mas não é sem fundamento a minha aparente insensibilidade, pois assim que avançava na leitura eu concluí na minha compreensão filosófica em que fui levado:
— Para todos os habitantes do planeta, indistintamente, por si só, eis que: A MORTE É HEREDITÁRIA.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

CRÔNICA - O FLAGRANTE DA IGNORÂNCIA DESCABIDA





O FLAGRANTE DA IGNORÂNCIA DESCABIDA

A crônica é uma forma de escrita que muito realiza aos escritores. Como é um modo de expressão que acima de tudo bem diz sobre a sua opinião do que viu ou pelos fatos ocorridos no cotidiano, cada um procura dar a sua forma especial o que acaba lhe caracterizando o seu estilo. Eu gosto que as minhas crônicas sejam um bate-papo descontraído entre duas pessoas por mais sério que seja o assunto. Eu gosto que seja como reunião happy hour numa gostosa tarde de verão, como bem pode ser naquela tarde fria de inverno numa sala aconchegante regada a café com canela quentinho com bolo de fubá ou, estando caminhando no outono pisando nas folhas secas pelas serras de Ubatuba nos caminhos tão fotografados por Manuel Carmo Vieira. Então é assim que eu convido você leitor a me acompanhar nesse triste fato que ocorreu o mundo.
Inicio com um pergunta. Você conhece Petra Laszlo? Não? Eu também não, mas a vi em fotos e vídeos. É sobre ela, uma desconhecida mundialmente e agora não mais que eu quero falar. Mas para falar dela preciso falar sobre armas. Não sobre as armas poderosas, destruidoras, verdadeiras “sossega-leões”, mas sobre as boas, as armas que estão nas mãos de muitos, algumas delas nas nossas também, tão poderosas quanto as destruidoras bombas usadas nos conflitos militares hoje em dia.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

CONTO - A RAZÃO DE UM MILAGRE


A RAZÃO DE UM MILAGRE

I-
James olha para um horizonte que lhe faz literalmente nele perder as suas duas vistas, um horizonte longe de determinar os limites da sua propriedade herdada do pai, completa, com tratos diversificados de culturas agricultáveis e cabeças de gados incontáveis a não ser com auxilio da atual tecnologia.
Dá por conta que completa hoje seus vinte e nove anos de vida, sendo um homem adepto do trabalho árduo, duro, labuta aprendida com o velho que morreu quando ele tinha ainda quinze anos e acabou o deixando com a mãe à própria sorte. Porém, as lições que aprendeu com o pai foram suficientes para que vencesse já que herdou também vontade, bom-senso, disposição além de ser agraciado por uma nata inteligência.
James, porém, teve o seu olhar interrompido da doce reminiscência quando a Maria Luisa aparece pela porta amparada por dois criados. Ele redireciona o seu olhar com pesar enquanto relembra que...
— A Maria Luisa apareceu há cinco anos  tal como uma fadinha na sua vida; repentinamente; sendo um clarão de luz bendita, silueta provocante a fazendo dona de uma beleza estonteante;  sendo menina ainda com sua décima quinta primavera recentemente festejada, mas já sendo responsável como uma mulher de trinta. Ela acompanhava o seu pai Teodoro, também um fazendeiro da região e que veio negociar gados; muitas cabeças. E a graciosa menina surpreendeu ao James pela sua desenvoltura deixando até que o seu pai fosse apenas um simples observador já que tinha mais tino pelos negócios que ele. A danadinha, seguida constantemente pelo olhar do rapaz, negociou como gente grande e cativou o seu coração. Cativou tanto que em cinco meses já estavam casados. Apaixonadíssimos.
No entanto...
Há cerca de trinta e cinco dias um desmaio interrompeu o conto de fadas. O doutor da região assim que examinou deixou o marido deveras preocupado e um simples exame de sangue logo mais confirmou o diagnóstico para a sua jovem esposa: Uma doença incurável.
Está ele indo agora para a capital, com a sua amada, na procura de uma medicina de ponta, na procura de esperanças.

 II-
James providenciou na capital de tudo necessário para a única mulher que ama intensamente: Acomodações de primeira, médicos especializados trazidos de outros centros e remédios. Infelizmente tudo se confirma que é: Quando numa história de “Era uma vez...” entra o “Mas...” começa a peregrinação do sofrimento. O especialista terminando a consulta balbucia no seu ouvido que tudo pode terminar em poucas horas, talvez no máximo em um dia.
Bem sabia o jovem marido que a situação dela era realmente terminal, pois tem coisas e sinais que indicavam ao homem muito observador e para isso não é necessário estudar medicina. Ele, porém, ao ouvir a opinião final do médico se torna pensativo e imediatamente se ajoelha perto da cama. O doutor, muito religioso, procura lhe dar palavras de apoio:
— Faz realmente bem pra vocês dois agora se apoiarem na fé.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CRÔNICA - NO SILÊNCIO DE UM GRITO DE ALERTA






NO SILÊNCIO DE UM GRITO DE ALERTA


Há dias em uma crônica opinei sobre a inércia que o mundo está se submetendo como aquela pessoa que em sua casa durante a faxina esconde a sujeira sob o tapete para recolhê-la somente mais tarde. Referia-me na oportunidade aos olhos cegos de todas as autoridades com poderes de soluções, autoridades de todos os continentes, principalmente daqueles geograficamente opostos à área de atualização dos extremistas do Estado Islâmico. Lembrei-me que no meu país temos um ditado variando nas palavras conforme a região, mas com o mesmo significado de “pimenta nos olhos dos outros, arde somente lá”.
Alertei oportunamente que está em formação um dos mais nefastos meios de aniquilação de pessoas registrados pela história que dará vergonha até ao império de Adolf Hitler, até para a guerra santa da Igreja Católica, até ao fascismo e tantos outros meios engendrados que mancharam o nome “Ser Humano” que é o atual êxodo registrado no mundo de mortos e explorados ou; explorados e depois mortos durante as travessias que só realizam pela desesperança na sua região natal provocada pela brutalidade de um grupo de radicais.
O que o mundo civilizado ainda não se alertou é que esse fenômeno nefasto não é liderável, organizável e aí está o perigo por deixá-lo crescer. Está rapidamente se tornando um califado desenfreado, sem fronteiras, e que nenhum país no mundo o impedirá de atuar, pois não será necessário passaporte para se adentrar em seus territórios já que basta existir nele um único ser demente e sedento por expressar a sua maldade interior como também um grupo igualmente desraigado de qualquer princípio humanitário e; fatalmente será colocado numa praia mais um corpinho como da criança afogada. E se essa praia for o seu quintal? E se pingarem a pimenta em seu olho?
Estou recusando-me a dar o nome do menininho que está se tornando a mais famosa vítima atualmente. Uma vítima não pode se tornar famosa e é por isso que me recuso a dar o seu nome, pois a mídia poderosa assim fazendo, tornando-o apenas a vítima mais famosa, amanhã o fará ser o desconhecido e nada famoso por interesse comercial, como aquele que tem a fama por quinze minutos apenas. Na verdade o nome dele amanhã poderá ser o de um dos meus oito netos, dos seus filhos, dos que estão nascendo neste momento em que está se lendo.
Na internet várias fotos e ensaios de arte bem demonstram a tragédia de todos que estão sendo diretamente atingidos pela maldade. Escolha uma e nela coloque a imagem do seu filho, do seu neto, do seu vizinho e grite para que as autoridades do nosso país e do mundo se mexam, mas se faz mais que necessário que — as suas ações extrapolem além da acolhida de todos que lá estão sofrendo — a criação de mecanismos para extirpar o tão desnecessário movimento dos extremistas do Estado Islâmico. A diplomacia em si nada poderá fazer, pois diplomacia significa diálogo entre dois lados e, consequentemente, como dialogar com um lado sem líderes e propósitos? Não é alarde descabido. O mundo está em perigo e a inércia é a mais aliada dos extremistas. O tempo está passando e só as autoridades não perceberam por interesses escusos e egoísticos por uns e culpa de outros que armaram e treinaram tais grupos.
Faz-se urgente a formação de coalizão por todos numa força tarefa de combate. No lugar da diplomacia inócua ao caso o que se faça agora é a formação de métodos de inteligência militar para localizar todos os focos nocivos aniquilando-os de alguma forma. Na segunda fase é necessário criar condições de parar o êxodo tão nefasto e cruel para repatriar os que deixamos pela inércia se tornarem párias, uma condição inaceitável para o século vinte e um. E numa terceira fase aí sim entrar diplomaticamente para fortalecer a autoestima dos envolvidos que naturalmente evitarão a criação de ideologias descabidas e perversas desde o seu nascedouro.
Alerto também...
Já querem criar mecanismos com interferência religiosa — despropósito de pensamento — Não adianta orarmos a Deus, pois Ele que todos e tudo criou agora descansa. Eu acho que Aquele que criou o livre-arbítrio se autocondenou a nunca mais interferir nas decisões do ser humano, mas que se tornou o Observador esperando de cada um de nós atitudes dignas para sermos reconhecidos como pessoas. Então, obviamente, a solução não passa pela religião, mas pela religiosidade intrínseca, nata em cada um de nós. Praticar atos nobres com princípios de religiosidade não é ter uma religião e tão pouco nos torna religiosos, mas nos torna, sim, com certeza, um SER HUMANO.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

REFLEXÃO - O JOVEM E O GIGANTE


NAS ENTRELINHAS DA HISTÓRIA – III

O JOVEM E O GIGANTE

(reflexão)

A maior beleza na vida é todos terem sempre uma oportunidade. Assim que é politicamente correto, socialmente correto, moralmente correto.
Todos devem ter simplesmente, na base da convivência entre civilizados, o direito de ser inscrito sem julgamentos e regras a sua participação no jogo da vida. É impossível que um pré-julgamento determine o verdadeiro vencedor baseado num rápido olhar pela fisionomia, fisiologia ou inteligência. Quando alguém decidir competir tem o direito de colocar a sua posição, da mesma forma, que a sua vitória e derrota é um problema próprio. Afinal é na sua participação aceita, a real vitória inconteste para si e para o seu oposto competidor. Numa civilização democrática, justa, moralmente verdadeira os dois já são vencedores.
Conto uma história:
— O jovem decidiu participar do jogo da vida naquele momento em andamento. A circunstância reinante aceitou a sua inscrição, porém, a sua determinação de estar apto ao desafio vinha da sua certeza que a atiradeira era perfeita, pois eis que a confeccionou pessoalmente; que o projétil que escolheu era do tamanho certo e com consistência mais que ideal já que era uma pedra na sua natural essência no papel de ser da sua criação: uma pedra. E durante o momento crucial ele não se viu pequeno e incapaz, estava preparado e via o adversário ideal, grande, enorme, gigante, sendo então um também grande alvo incapaz pelo tamanho de ser inatingível: Impossível de errar.
E então...
Davi confiante, calmo, preciso, atirou e...
O Golias morreu.
O milagre não existiu. A vitória de Davi baseou-se na oportunidade dada e na sua aceitação pelo desafio friamente analisado.
Agora...
O milagre foi da natureza ter criado com perfeição: Uma pedra.

sábado, 15 de agosto de 2015

PROSA POÉTICA - CANÇÃO DO AMOR EXILADO

 CANÇÃO DO AMOR EXILADO


 Aguardo há muito tempo uma canção saída do meu coração que nele chegou navegante de alma, aquela canção inspirada na expectativa da sua presença, pela sua volta novamente. Mas eu impositivamente quero que seja uma melodia carregada dos acordes tríades murmurando “eu te amo” produzidos pelas minhas lembranças vividas com você; para com você. 
E...
Enquanto eu estando ao seu encontro e procura caminho determinado, além; prometendo-me controlar claramente no ímpeto dos desejos guardados, pois eu sempre soube que teimosamente não queria ignorantemente admitir como sendo o meu erro — unicamente meu — por achar que a saudade só habitasse o interior dos outros e somente neles fizesse morada, eis que tal ilusão que teimei em não reconhecer que existisse em mim e por mim: Provocou-me os erros.
Agora quero que saiba; os anos se fundiram à razão me ensinando às duras penas que o tempo planeja principalmente quando distraídos estamos... Quando enamorados estamos. E é aí que os sonhos deixam aos poucos o seu colorido se desbotar pelas lágrimas que não conseguimos mais represar. Então eu falo lá dentro de mim — no mais íntimo do meu ser — que quando da sua volta não vou mais vacilar e deixar a dor da partida ocorrer novamente.
É por tudo isso que há muito tempo aguardo uma única canção ao seu tributo desde que ela jorre saída do meu coração e seja um convite meu ao bailado dos nossos corpos uníssonos, inseparáveis também na mente, nos sentimentos e na Alma. Assim finalmente em uma paz profunda possa eu dizer langoroso e calmamente nos seus ouvidos em forma de poema a frase:
― Eu te amo como nunca um homem amou uma mulher.
E temeroso ficarei atento na sua reação de satisfação através do seu sorriso e do seu olhar para quando seus olhos brilharem, se somente brilharem especialmente pra mim... Então:
— Deitar-me-ei ao seu lado e provocarei pela intensidade dos meus sentimentos o silêncio que só o verdadeiro amante impõe ao Universo.
E...
Estando enamorado novamente me entregarei a você e à vida como nunca o fiz: Em forma de uma lindíssima canção saída do meu coração.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

PROSA POÉTICA - ORGIA DE SENTIMENTOS



ORGIA DE SENTIMENTOS

Acordei muito cedo de uma noite que não foi das melhores, sozinho numa cama tão grande como a solidão que me ronda há dias cheirando ausência: Ou quase sozinho já que; estando somente eu e, muito vale contar, mais as lembranças.
Saudades? Não! Odeio a maldosa Sra. Saudades. Sendo eu um escritor uma vez ou outra a tolero como necessidade de profissão, pois ela até sonoriza agradavelmente em prosas e versos quando inserida adequadamente, mas a danada escraviza, corroí como sentimento. Para mim ela expressa um sentimento nefasto me levando a preferir sentir: lembranças.
Meus suspiros são longos e incompreensíveis até por mim mesmo e, como o teimoso relógio lá na sala não se contenta somente em registrar o tempo passando velozmente, insiste também em se fazer sempre anunciar como mensageiro da nostalgia com o seu, agora melancólico, compasso de segundo a segundo invadindo a casa, a sala, o meu quarto e os MEUS pensamentos só me restando então trazer para a cama as lembranças:
— Quais? As lembranças dos amores que vivi que foram intensos enquanto duraram e perpetuados pela boa vivência. Confesso: Assim com todos eles eu combinei que “Amor tem que ser intenso e ficar para toda a vida”, ou seja: as suas lembranças é que devem permanecer embora todos nós escolhemos mais cedo ou mais tarde por algum caminho desejado, com ou sem a pessoa amada.
 Mas eu sempre evito transformar o que foi vivido em saudades — jamais — e sim, somente em doces lembranças. Como agora que as trago todas para a minha cama, cada qual como era o seu jeito:
― Uma se achegava sempre com o seu sorriso maroto de quero mais; mansinha como brisa suave sempre acariciando aqui e acolá e: Provocava, impunha-me ser amante viril e graciosamente como flor perfumada fazia da noite a senhora do prazer.
Conto além...
― Outra se aproximava tímida com aquele medo de não agradar. Dengosamente dançava entre os meus sentimentos e desejos, mostrava-se sem querer se mostrar, pedia para parar sem querer que eu parasse e: implorava-me para ser sempre um professor e fazia da noite a senhora da delicadeza.
A terceira...
― Ah! Era a mais sempre afoita. Chegava tomando a iniciativa criando em cada encontro novas maneiras; inventava reinventando jeitos, sorria alegrias safadinhas e gemia sempre constantes prazeres: Implorando-me para ser sempre um aluno fazendo da noite a senhora da paixão.
Num belo dia...
— Quando finalmente ela chegou: Encontra-me um bom professor formado; um aluno exemplar; um amante excelente e com isso divide a glória dos amores Bem-Vividos — Gostoso como os doces —. E ficou... Fez morada... Aninhou-se como bem entendeu. Ah, como eu adorei! Deu-me filhos e os filhos me deram os netos: Frutos gerando frutos. Com os filhos me fiz homem, com os netos me tornei criança novamente e finalmente.
Porém...
— E num belo dia, como as outras, o papel lhe coube cumprir e igualmente ela sentiu a necessidade de ser livre, — A liberdade é a necessidade dos que são felizes —, uma conquista final. Claro que foi justo ela querer ser livre e me deixar livre também!
 Mas, para quê?
— Bom! eu respondo por mim. Sinto-me livre para sentir como hoje as boas lembranças trazendo todas para a minha cama realizando uma orgia de sentimentos: Orgia somente com eles e com elas sendo sempre lembranças doces como os doces Bem-Vividos e...
Sempre bem-vindos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

PROSA POÉTICA - O CAMINHEIRO DOS LONGOS CAMINHOS


 O CAMINHEIRO DOS LONGOS CAMINHOS

Estou eternamente procurando.
Procurando-me, revirando-me e, vasculhando-me.
Para isso é que eu caminho eternamente:
Procuro por palavras que expressem os meus sentimentos:
Procuro a mulher que ainda possa representar o meu verdadeiro amor;
Procuro pelos sentimentos que exterminem a minha solidão;
Procuro pela criança que ainda brinca em volta da minha esperança e a quer ver realizada;
Procuro incansavelmente pelo verdadeiro andejo amigo;

Procuro ansiosamente por todos aqueles que já se foram somente para dizer o que não disse e devia há muito ter dito;
Procuro até pelos meus documentos a minha real identidade...

Para isso é que caminheiro sou eternamente:
Procurando-me tenazmente numa vida que eu quero ainda intensamente viver;
Revirando-me como lembranças das minhas lembranças outrora perdidas;
Vasculhando-me, arduamente, tornando-me eu mesmo dentro do possível.

Para mim os caminhos são sonhos pedindo para serem sonhados...
Por isso então que eu sou um teimoso caminheiro dos longos caminhos...
Somente deles...
Já que as minhas histórias jamais serão incontadas...
Pois eis que os meus sonhos são longos, inacabáveis, perpetuáveis...
Sempre realizáveis.

 Crédito: Fotos de Manuel Carmo Vieira


domingo, 19 de julho de 2015

CONTO - SETECENTOS CAPÍTULOS DE AMOR


SETECENTOS CAPÍTULOS DE AMOR

I-
O gabinete de trabalho do Dr. Heraldo remete ao passado: O seu conjunto de móveis com poltronas confortáveis e primorosamente conservados, duas máquinas de escrever Olivetti contrastando com um antigo monitor de computador, vasos chineses nos cantos com bonitas flores do campo e logicamente ele, o advogado da família e amigo há mais de cinquenta anos com seus óculos de armação tão antiga quanto o dono, uma calça enorme e larga presa com suspensórios afivelados pelo aparente metal dourado e uma eterna paz que se expressa quando abre seu cabedal de conhecimento jurídico para aconselhar seus clientes. Clientes que já não tem mais, eis que se aposentou definitivamente alegando as limitações pela artrite e pelo seu malvado diabetes. Mas conservou somente um, o Eduardo, amigo de quatro costados que agora também resolveu deixá-lo ao partir para o desconhecido. Heraldo suspira saudosista na sua última reunião como conselheiro:
— O Eduardo deixou seu inventário detalhadamente redigido e eu sei que vocês três já sabem quais eram os seus desejos. Portanto vou dispensar a sua leitura e somente entregar esta carta ao menino Josué para dizendo-lhe que deve abri-la quando estiver em casa e em particular: Eis a última vontade do querido amigo.
Josué é o único sobrinho do Eduardo, homem solitário nos costumes, solidão, porém, jamais existente quando se reunia com a irmã, o cunhado e o seu herdeiro sobrinho. Tudo ele fez em vida para o menino que viu nascer, batizou, pagou-lhe as melhores escolas e chorou quando de maneira inédita, pela afinidade que sempre tiveram, na formatura como um Físico Teórico, o jovem dispensou uma madrinha e perante as fisionomias estupefatas de todos os presentes ele dançou com o tio a valsa: E sorriram, se abraçaram, fizeram gozados trejeitos e foram aplaudidos. E agora...
— E agora Josué está sem o amigo e tio, companheiro de muitas pescarias, companheiro viajor inseparável pelas suas andanças em vários países. O sobrinho em agora profunda tristeza pela ausência, sentado em uma poltrona da sala na casa que herdou do tio tem apenas: um nó na sua garganta pelo choro represado, uma carta, e muitas já saudades que só um verdadeiro amigo consegue sentir verdadeiramente.

II-
O Josué ficou assim muitas horas sentado na sala com a carta na sua mão. Apalpou-a várias vezes sentido a presença de uma chave, porém, esperou antes de abri-la para relembrar como foi a sua infância com o tio Edu, as conversas que tiveram como os seus sonhos, desejos e segredos revelados. O tio não! Nada revelava e apenas malandramente o incentivava a tagarelar e; quando chegava a sua vez quase sempre se calava. O Josué lembrou que uma vez perguntou ao tio o porquê nunca tinha se casado e obteve dele apenas um olhar vago e marejado de segredos com sete chaves. Nunca mais arriscou a deixar o tio novamente triste.
Suspira com a sua parte mais dorida; a alma. E...
Agora sim Josué rasga a carta com cuidado encontrando dentro um bilhete curto — sentindo-se até desapontado, pois esperava uma longa carta de despedida — e a chave que já tinha percebido ao toque. Leu:

“Querido moleque continue sendo o garotão do tio como sempre foi já que a morte tudo separa; menos o amor; as boas lembranças e todas as coisas boas de uma verdadeira amizade. Assim eu sempre o considerei: um amigo especial.
A chave abre um pequeno baú que está escondido no meu guarda-roupa e tudo que tem nele é seu, para você dar o destino que melhor achar.
Certa vez a sua curiosidade me perguntou: Por que nunca teve alguém? Não vou lhe dizer mais uma vez, mas lhe alertar para você nunca deixar de dizer o que sente por alguém mesmo recebendo um não. Quando eu tinha vinte e cinco anos eu recebi um não de uma pessoa e erroneamente considerei que era da vida e decidi permanecer sozinho. Não faça como eu já que: O importante é amar profundamente sempre e se tiver o efeito colateral de ser correspondido: melhor.
Outra coisa, querido amigo que por ironia do destino é também meu sobrinho, lembre-se da minha promessa assim que você optou por ser um físico teórico: Seja o melhor: que seja você a desvendar todos os mistérios do Universo e se não fizer eu corto o seu saco. A minha promessa ainda vale.
Beijos e cuide-se; e conserve o seu saco.”

Josué riu. A carta bem representava o tio, o amigo e a amizade que sempre tiveram.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

REFLEXÃO - SER TOLO OU SÁBIO

SER TOLO OU SÁBIO


Deve existir sempre uma escolha. Mais cedo ou mais tarde as encruzilhadas da vida exigem para cada um de nós uma decisão: Caminhe agora sendo um tolo ou sábio!
Parte da minha jornada eu caminhei sendo um tolo, confesso, fazendo-me sabido sem ser. Exatamente; somente os tolos podem ser tão sabidos e assim agem. Mas, todavia, enquanto as lições contidas na essência do bem viver não forem perfeitamente aprendidas eis que devemos ser alunos e tolos, naturalmente assim é. Até que...
 Eu me despertei quando um deslumbre de sabedoria começou a dirigir a minha vida e não foi difícil, não foi espetacular, não foi uma árdua lição a praticar e vivenciar. Foi até mais fácil que caminhar o próprio caminho até agora percorrido já que somente a lição mais importante que deveria ser aprendida era simplesmente:
— Que um homem sábio é aquele que nunca sabe tudo.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

REFLEXÃO - EU NÃO SOU LOUCO




EU NÃO SOU LOUCO

Assim que o diretor responsável anuiu o meu pedido de adesão ao quadro de frequentadores do famoso clube eu imediatamente pedi a minha desfiliação, pois jamais frequentaria um clube que teve a coragem de me aceitar como sócio.
Na saída encontrei-me com Groucho Marx que logo foi dizendo:
— Aqui também terão coragem de nos aceitar como sócio, amigo insuperável desafortunado?
Porém, diante da minha afirmativa retrucou como consolo:
— Vamos então! Acharemos um clube à altura que acabe de cara nos descartando.
E saímos rindo pelas novas boutades que loucamente ele ia maravilhosamente criando.




sábado, 4 de julho de 2015

PROSA POÉTICA - DOCE ENCANTAMENTO

DOCE ENCANTAMENTO


E a recordação se fazendo presente:
― Faz quanto tempo?
Quinze encontros a cada quinze dias e: Despedida.
Relembrando mais:
— Estava eu tomando o café e ela esbarrou em mim com o seu braço entornando o líquido na minha camisa. Lembro-me como se fosse hoje que ruborizada ela pedia desculpas e com um guardanapo de papel tentava limpar o estrago numa vã tentativa. Mas o mais importante é que eu podia sentir o seu perfume inebriante e um hálito doce atingindo o meu rosto como se fossem carícias: Carícia que há muito tempo eu não tinha de uma linda mulher como ela.
Graciosamente, sorrindo, ela insistia... Mecanicamente e com movimentos delicados a menina insistia em limpar só parando quando tomei as suas mãos com as minhas e jurei por tudo estar bem. Só assim foi que parou finalmente e me olhou — ah! falando comigo com os seus olhos — dois lindos olhos atrevidos e verdes como as esmeraldas, como aquelas pedras achadas e lapidadas para serem as maiores joias já existentes e além; as mais belas.
Estarrecido eu fiquei em momentos: Inerte. Óbvio que não se pode deixar uma linda mulher partir assim sem ao menos saber o seu nome. Insisti em saber, só que ela atrevidamente me respondeu:
― Pra que nomes! Escolha um apelido baseando-se no que vê. — E olhava misteriosamente como querendo me encantar; e conseguindo tal.
Claro que eu não me faço de rogado: Nunca.
― Fadinha. — disse-lhe mais rápido que os meus pensamentos de pura admiração.
Atrevidamente ela procura em mim outro comparativo e até o seu jeitinho de pensar encanta o conto:
― E você, um anjinho. É isso mesmo, um anjinho.
E riu aquele riso mágico, perturbador e provocante.
― Anjinho e fadinha, eis o que somos a partir de agora ela foi me dizendo marotamente expressando uma mistura de mulher ainda sendo menina: Existente só nelas.
Pensei: Estaria o Universo escrevendo uma história? Ou só revelando uma já escrita, pois em duas horas conversando estávamos na minha casa como se fossemos conhecidos há séculos.
E...
E nos amamos como os amantes antigos, como aqueles que já se descobriram, mas só parcialmente, de propósito, para que se tenha sempre em cada encontro o que desbravar.
Porém...
E regras foram impostas: quinze encontros de quinze em quinze dias para tudo acabar como sendo a exigência de uma fadinha; jamais revelar nomes foi a exigência de um anjinho.
E os encontros?
— Os encontros todos mágicos desenrolando sempre numa aventura. Seria uma eterna aventura? Aquelas inevitáveis traçadas pelos deuses? Pouco importa conquanto que se desenrole enquanto existir como um segredo entre dois seres que sabem guardar as suas reminiscências, como dois seres que quando estão juntos vivenciam cada um o seu segredo sem se preocupar de ser roubado ou descoberto, numa confiança absoluta.
Quais esses segredos? Respondo pelo meu: O meu é esperar que ela exausta durma e assim que permanecendo deitado ao seu lado possa continuar com a admiração prolongando os prazeres já conseguidos e intensamente realizados.
Além de...
Sentir o seu alento suave de quem sonha com os encantamentos que só uma fadinha consegue realizar; é eu levantar devagarzinho o lençol que cobre a sua nudez e ainda delicadamente percorrer o seu corpo só com as pontas dos dedos sentindo-a ainda úmida nos seus pelinhos tão claros tanto como é a sua pele e os seus cabelos.
E tem mais?
— É cobri-la de novo depois do deleite de alguém que sabe que não a terá para sempre, pois afinal só pode ser um conto encantado com dois personagens de nomes fictícios e tão sugestivos. Tenho que aproveitar agora que está juntinha ao meu corpo, adormecida, ainda que só momentaneamente.
— Ah! Vai mais longe ainda, o meu segredo; é passar um bom tempo admirando a sua silhueta de mulher agora na penumbra do quarto sabedor que o meu papel de guerreiro no dia já passou e vai obrigatoriamente ter que dormir também...
Profundamente...
De uma maneira profundamente, misteriosamente e que acontece sempre em cada encontro ao ponto de eu não ser capaz de acordar para vê-la sair.
Aquele sono que parece resultado de um encantamento bem-feito...
Bem feito por uma linda fadinha.
Aquele encantamento bem-feito, bem feito para o amor, um benfeito para usufruir pela minha vida afora.
  
“Assim essa história eu ia escrevendo e vivendo...
Só que um dia nunca mais ela apareceu.
E como num encantamento ela no meu quarto deixou:
Um perfume inebriante;
E uma luz brilhante e marcante com se fosse,
Vinda de duas lindas esmeraldas.”