domingo, 19 de julho de 2015

CONTO - SETECENTOS CAPÍTULOS DE AMOR


SETECENTOS CAPÍTULOS DE AMOR

I-
O gabinete de trabalho do Dr. Heraldo remete ao passado: O seu conjunto de móveis com poltronas confortáveis e primorosamente conservados, duas máquinas de escrever Olivetti contrastando com um antigo monitor de computador, vasos chineses nos cantos com bonitas flores do campo e logicamente ele, o advogado da família e amigo há mais de cinquenta anos com seus óculos de armação tão antiga quanto o dono, uma calça enorme e larga presa com suspensórios afivelados pelo aparente metal dourado e uma eterna paz que se expressa quando abre seu cabedal de conhecimento jurídico para aconselhar seus clientes. Clientes que já não tem mais, eis que se aposentou definitivamente alegando as limitações pela artrite e pelo seu malvado diabetes. Mas conservou somente um, o Eduardo, amigo de quatro costados que agora também resolveu deixá-lo ao partir para o desconhecido. Heraldo suspira saudosista na sua última reunião como conselheiro:
— O Eduardo deixou seu inventário detalhadamente redigido e eu sei que vocês três já sabem quais eram os seus desejos. Portanto vou dispensar a sua leitura e somente entregar esta carta ao menino Josué para dizendo-lhe que deve abri-la quando estiver em casa e em particular: Eis a última vontade do querido amigo.
Josué é o único sobrinho do Eduardo, homem solitário nos costumes, solidão, porém, jamais existente quando se reunia com a irmã, o cunhado e o seu herdeiro sobrinho. Tudo ele fez em vida para o menino que viu nascer, batizou, pagou-lhe as melhores escolas e chorou quando de maneira inédita, pela afinidade que sempre tiveram, na formatura como um Físico Teórico, o jovem dispensou uma madrinha e perante as fisionomias estupefatas de todos os presentes ele dançou com o tio a valsa: E sorriram, se abraçaram, fizeram gozados trejeitos e foram aplaudidos. E agora...
— E agora Josué está sem o amigo e tio, companheiro de muitas pescarias, companheiro viajor inseparável pelas suas andanças em vários países. O sobrinho em agora profunda tristeza pela ausência, sentado em uma poltrona da sala na casa que herdou do tio tem apenas: um nó na sua garganta pelo choro represado, uma carta, e muitas já saudades que só um verdadeiro amigo consegue sentir verdadeiramente.

II-
O Josué ficou assim muitas horas sentado na sala com a carta na sua mão. Apalpou-a várias vezes sentido a presença de uma chave, porém, esperou antes de abri-la para relembrar como foi a sua infância com o tio Edu, as conversas que tiveram como os seus sonhos, desejos e segredos revelados. O tio não! Nada revelava e apenas malandramente o incentivava a tagarelar e; quando chegava a sua vez quase sempre se calava. O Josué lembrou que uma vez perguntou ao tio o porquê nunca tinha se casado e obteve dele apenas um olhar vago e marejado de segredos com sete chaves. Nunca mais arriscou a deixar o tio novamente triste.
Suspira com a sua parte mais dorida; a alma. E...
Agora sim Josué rasga a carta com cuidado encontrando dentro um bilhete curto — sentindo-se até desapontado, pois esperava uma longa carta de despedida — e a chave que já tinha percebido ao toque. Leu:

“Querido moleque continue sendo o garotão do tio como sempre foi já que a morte tudo separa; menos o amor; as boas lembranças e todas as coisas boas de uma verdadeira amizade. Assim eu sempre o considerei: um amigo especial.
A chave abre um pequeno baú que está escondido no meu guarda-roupa e tudo que tem nele é seu, para você dar o destino que melhor achar.
Certa vez a sua curiosidade me perguntou: Por que nunca teve alguém? Não vou lhe dizer mais uma vez, mas lhe alertar para você nunca deixar de dizer o que sente por alguém mesmo recebendo um não. Quando eu tinha vinte e cinco anos eu recebi um não de uma pessoa e erroneamente considerei que era da vida e decidi permanecer sozinho. Não faça como eu já que: O importante é amar profundamente sempre e se tiver o efeito colateral de ser correspondido: melhor.
Outra coisa, querido amigo que por ironia do destino é também meu sobrinho, lembre-se da minha promessa assim que você optou por ser um físico teórico: Seja o melhor: que seja você a desvendar todos os mistérios do Universo e se não fizer eu corto o seu saco. A minha promessa ainda vale.
Beijos e cuide-se; e conserve o seu saco.”

Josué riu. A carta bem representava o tio, o amigo e a amizade que sempre tiveram.


III-
Sobre a cama o baú com o segredo que ainda o instigava. Na verdade o Josué até hesitou ao abri-la, mas fez, deparando-se com muitas cartas amarradas com fitilhos amarelos de cem em cem e que estavam com o envelope preenchido com um nome e endereço de outra cidade perto da sua, mas que nunca visitou. Notou, também, que não tinha sido preenchido o remetente além de observar que no seu canto superior estavam numeradas. Posicionou os montes na ordem sobre a cama e assim que a ultima série foi colocada no seu devido lugar reparou que o número da última era: seiscentos e noventa e nove cartas. Como acostumado pela profissão ao cálculo deduziu rápido:

— O tio Eduardo disse que recebeu um — não — aos vinte e cinco anos e se foi a partir dessa data dá pra deduzir que escreveu por cinquenta e oito anos e; pelo número de cartas ele escreveu uma carta por mês durante cinquenta e oito anos. Puxa! E sempre no dia doze de cada mês, provavelmente o dia da sua decepção, já que é a data entre parênteses sempre logo após o nome: Aline Cristina. Aline foi o grande e único amor da sua vida? E o que aconteceu pra separá-los? O que ele realmente queria que eu fizesse com elas? Queimar? Guardar? Ler?
Josué começa a ficar inquieto já que está mais fácil encontrar perguntas do que respostas. Como um físico teórico acostumado a pensar está se sentindo um zero à esquerda por não conseguir concatenar seus pensamentos. Fica olhando pras cartas de amor decidido a criar todas as perguntas possíveis e depois irá se debruçar sobre as questões que surgirem:
— Estará a Aline ainda viva? Possível.
— Estará ela ainda morando no mesmo endereço? Possível.
— Teria ela se casado? Possível.
— Saberia que ele a amou? Sim e não.
... permanece pensando enquanto passa a mãos sobre os montes. E de repente a sua mente analítica:
— O tio escrevia todo dia doze, mas ele morreu nesse mês dia quinze. Será que escreveu a carta do mês? Será que existe a de número setecentos? Ficando sobressaltado pela possibilidade vai indagando a si mesmo: Onde estará a carta? Perguntava uma mente treinada a formular perguntas e sair correndo atrás da solução. Onde ele costumava escrever? Eu já o vi escrevendo na sua escrivaninha ao lado da estante de livros o Josué pensava enquanto se dirigia ao local e parando até trêmulo diante do gracioso móvel com três gavetas; na primeira existiam várias contas do mês organizadas pela data de vencimento: na segunda mais diversos documentos e bloquinhos de rascunho ao lado de três canetas e; na terceira gaveta papeis de carta em branco. Sobre o tampo tão pouco o sinal da mesma. Sendo um segredo eu escreveria e mesmo se estivesse terminada ou não eu esconderia contra eventuais olhos alheios: Onde ele esconderia se no baú com as outras não está? E se ele não escreveu? Não! Foge da lógica para alguém que escreveu uma carta todo mês por uma vida inteira... Josué até decidido a continuar sua busca por toda a casa tem um momento de intuição ao fitar os livros da estante. Eu colocaria entre as folhas de um livro, por que não? Puxa! Quantos livros! E em qual deles ela estará? Terei que procurar em; um por um. Como ele conservava arrumadinho, aparelhados, catalogados com certeza. Epa! Um está fora de lugar, desalinhado. Eu acho que achei o esconderijo, balbuciava enquanto retirava o livro: Cem Anos de Solidão.
E achou realmente...
— O Josué encontra a folha dobrada e o envelope igualzinho como os demais com nome, endereço e no canto superior o número setecentos. O jovem até titubeia na sua decisão entre ler a septigentésima ou não. Decide:

“Querida Aline.
Minha amada, eu sinto estar próximo de não poder mais estar com você com as letras que ousadamente eu coloco nas folhas, mas que nunca tive coragem de lhe enviar. Eu falo assim, pois nos últimos dias tenho me sentido mais fraco fisicamente, a pressão alterando constantemente, dores seguidas no peito e relativa dificuldade em muitos momentos do dia de respirar com perfeição.

Eu acho querida menina, que a minha caminhada é um ato: findo. De tudo da vida eu levo alegrias e felicidades além, logicamente, de tê-la amado com todas as forças do meu ser. Mas em todas as cartas disse-lhe como eu vivi; como poderia ter vivido ao seu lado e nunca tive até nas escondidas linhas a coragem de lhe explicar o porquê nunca confessei o amor que sentia. Acho que é o momento:
— Lembra-se que um dia lhe enviei uma rosa vermelha e um bilhete declarando o meu amor por você? Eu mandei lhe entregar na parte da manhã, e à noite fui até a sua casa com coragem pra dizer-lhe que sonhava uma vida ao seu lado. Eu tinha vinte e cinco anos e você tão menina aos dezessete, mas aos meus olhos tão mulher! Acontece que assim que me aproximava da sua casa vi ao longe outro menino, mais afortunado, recebendo de você um caloroso beijo. Afastei-me; de você; afastei-me dos sonhos; afastei-me até da vida.
Mas minha querida Aline eu nunca guardei rancor. Sempre pensei que todos nós temos escolhas; eu a escolhi e você com o mesmo direito escolheu alguém. Decidi, porém, ser petulante e escrever uma carta todo dia doze do mês guardando-as como um tributo ao meu amor-sincero.
Hoje, porém, não vou realçar, além disso, o que sempre senti, mas sei que ao amor que sempre senti em algum lugar no Universo acontecera o momento certo onde possamos nos encontrar. Eu acredito que a morte não existe, a vida; sim!
Eu lhe amarei pela eternidade.
Até breve.
Eduardo.”

Josué ao terminar de ler percebeu na folha, logo abaixo da assinatura, a existência de um pequeno círculo enrugando que era com certeza a marca por alguma gota de lágrima que certamente correu pelo canto do olho do tio. Mais uma vez se lembra da sua dúvida que persiste no que deve fazer com as cartas, agora a mais valiosa herança, mas que para essa carta ele sabe exatamente o seu destino: Dobra com uma delicadeza extrema a folha escrita, insere-a no envelope lacrando-o e com a mesma delicadeza desata o nó do fitilho amarelo no último montinho de cartas completando assim o seu número de cem. Agora tem sobre a cama um conjunto de setecentas histórias de amor, setecentos capítulos escritos por um único coração.
Ele medita:
— Deve ter sido difícil ao tio escrever a primeira e a última carta. Elas são sempre as mais difíceis, pois as cartas de amor são para unir as mãos dos amantes que estão distantes. Então na primeira é o reencontro e na última pode ser o adeus. Assim eu acho que o meu tio sentiu.
Josué decide deixar a busca das soluções para as demais decisões ao dia seguinte já que: mesmo para um corpo jovem como o seu, as emoções foram intensas demais.

IV-
Josué teve a sua noite de sobressaltos pelo tudo que tem que realizar. Já decidiu que irá se mudar para a casa herdada tendo finalmente o seu canto.
Decidiu também que jamais lerá ou queimará as cartas do tio e pensará no seu devido tempo como fará para conservá-las. Decidido mesmo está é que irá procurar saber se ainda vive o grande amor da vida do amado tio, se ela mora no endereço das cartas e se soube alguma vez que foi tão amada por ele. Os meios já sabe como desvendar: contratará um detetive particular.

V-
Trinta dias de ansiedade chegando ao fim. Aguarda pelo detetive que está sentado na sua frente, à cabeceira da mesa, arrumando na sequência as fotos tiradas. A calma do profissional lhe é martirizante. Finalmente:
— A Sra. Aline Cristina está viva e ainda mora no mesmo endereço. Tem ela agora setenta e quatro anos, mas se encontra sozinha sem marido e filhos. A senhora se divorciou com seis meses de casada e nunca mais procurou um novo relacionamento, vivendo numa ampla casa mantendo-se praticamente reclusa ao lar e há muito, também, deixou de conversar com a única amiga que frequentava a sua residência; uma senhora viúva com filhos e netos. Essa amiga, por três caixas de chocolate, revelou-me muitas histórias dela que transcrevi nessas seis folhas confessando-me que a Aline até deixar de conversar lhe disse que teve um grande amor, um senhor de nome Eduardo, desaparecido desde o dia que lhe enviou uma rosa. Alegava sempre, a Aline, que foi o maior presente recebido na sua vida, enamorada que ficou com o bilhete recebido com a flor levando-a  no mesmo dia dispensar um pretendente bobo que insistia em lhe namorar.
Descobri que ela esperou por dez anos o tal Eduardo e perdendo a esperança acabou se casando com um jovem que logo no início do casamento já mostrou seu nefasto caráter, ora lhe batendo, bebendo demasiadamente e saindo com mulheres. Por algum tempo ela frequentava a igreja com a tal amiga que adora chocolates, iam juntas em algum passeio, mas de repente começou a se entregar à solidão, afastando-se completamente, vivendo só dentro de casa. As fotos foram tiradas depois de muitos dias de campana, nas raras vezes que ela saiu para ir ao mercado. É tudo que tenho como informação.
Josué ficou olhando para a graciosa mulher na fotografia. Agora sabe que o grande amor do seu tio Edu ainda vive e que o aguardou um bom tempo sofrendo por amor tanto como ele.
Agora Josué irá esperar uma luz para ver o que fará com as cartas.

VI-
E o tempo passou...
Há seis meses Aline Cristina é uma mulher mudada, rejuvenescida. Voltou a frequentar a igreja, reconciliou com a amiga e juntas vão ao cinema, ao teatro e participam até como voluntárias numa creche de crianças órfãs. A elegante senhora mandou pintar a sua casa com cores alegres, reformulou o jardim e recebe vários amigos para um bingo todos os meses. Ela reserva, porém, dois dias para si: O dia quinze e o dia trinta de cada mês que são os dias que misteriosamente recebe uma carta de amor escrita há muito tempo para ela juntamente com um botão de rosa vermelha. Aline relembra o jeito gracioso do jovem que no passado lhe enviou a primeira flor, fica imaginando a fisionomia que pode ele ter agora, encanta-se com cada frase, cada palavra, a poesia dos escritos, e ri de alegria por saber que sempre foi intensamente amada. E são dois dias que dorme como menina sentindo-se a mulher que sempre soube que era. Precisava de um sonho e ele acontece mensalmente.
E...
Quando ela receber todas as cartas escritas uma linda história de amor com setecentos capítulos estará perpetuada cabendo apenas ao Universo marcar para o Eduardo e para a Aline o momento para um esperado reencontro na eternidade.