sexta-feira, 7 de agosto de 2015

PROSA POÉTICA - ORGIA DE SENTIMENTOS



ORGIA DE SENTIMENTOS

Acordei muito cedo de uma noite que não foi das melhores, sozinho numa cama tão grande como a solidão que me ronda há dias cheirando ausência: Ou quase sozinho já que; estando somente eu e, muito vale contar, mais as lembranças.
Saudades? Não! Odeio a maldosa Sra. Saudades. Sendo eu um escritor uma vez ou outra a tolero como necessidade de profissão, pois ela até sonoriza agradavelmente em prosas e versos quando inserida adequadamente, mas a danada escraviza, corroí como sentimento. Para mim ela expressa um sentimento nefasto me levando a preferir sentir: lembranças.
Meus suspiros são longos e incompreensíveis até por mim mesmo e, como o teimoso relógio lá na sala não se contenta somente em registrar o tempo passando velozmente, insiste também em se fazer sempre anunciar como mensageiro da nostalgia com o seu, agora melancólico, compasso de segundo a segundo invadindo a casa, a sala, o meu quarto e os MEUS pensamentos só me restando então trazer para a cama as lembranças:
— Quais? As lembranças dos amores que vivi que foram intensos enquanto duraram e perpetuados pela boa vivência. Confesso: Assim com todos eles eu combinei que “Amor tem que ser intenso e ficar para toda a vida”, ou seja: as suas lembranças é que devem permanecer embora todos nós escolhemos mais cedo ou mais tarde por algum caminho desejado, com ou sem a pessoa amada.
 Mas eu sempre evito transformar o que foi vivido em saudades — jamais — e sim, somente em doces lembranças. Como agora que as trago todas para a minha cama, cada qual como era o seu jeito:
― Uma se achegava sempre com o seu sorriso maroto de quero mais; mansinha como brisa suave sempre acariciando aqui e acolá e: Provocava, impunha-me ser amante viril e graciosamente como flor perfumada fazia da noite a senhora do prazer.
Conto além...
― Outra se aproximava tímida com aquele medo de não agradar. Dengosamente dançava entre os meus sentimentos e desejos, mostrava-se sem querer se mostrar, pedia para parar sem querer que eu parasse e: implorava-me para ser sempre um professor e fazia da noite a senhora da delicadeza.
A terceira...
― Ah! Era a mais sempre afoita. Chegava tomando a iniciativa criando em cada encontro novas maneiras; inventava reinventando jeitos, sorria alegrias safadinhas e gemia sempre constantes prazeres: Implorando-me para ser sempre um aluno fazendo da noite a senhora da paixão.
Num belo dia...
— Quando finalmente ela chegou: Encontra-me um bom professor formado; um aluno exemplar; um amante excelente e com isso divide a glória dos amores Bem-Vividos — Gostoso como os doces —. E ficou... Fez morada... Aninhou-se como bem entendeu. Ah, como eu adorei! Deu-me filhos e os filhos me deram os netos: Frutos gerando frutos. Com os filhos me fiz homem, com os netos me tornei criança novamente e finalmente.
Porém...
— E num belo dia, como as outras, o papel lhe coube cumprir e igualmente ela sentiu a necessidade de ser livre, — A liberdade é a necessidade dos que são felizes —, uma conquista final. Claro que foi justo ela querer ser livre e me deixar livre também!
 Mas, para quê?
— Bom! eu respondo por mim. Sinto-me livre para sentir como hoje as boas lembranças trazendo todas para a minha cama realizando uma orgia de sentimentos: Orgia somente com eles e com elas sendo sempre lembranças doces como os doces Bem-Vividos e...
Sempre bem-vindos.