terça-feira, 8 de setembro de 2015

CONTO - A RAZÃO DE UM MILAGRE


A RAZÃO DE UM MILAGRE

I-
James olha para um horizonte que lhe faz literalmente nele perder as suas duas vistas, um horizonte longe de determinar os limites da sua propriedade herdada do pai, completa, com tratos diversificados de culturas agricultáveis e cabeças de gados incontáveis a não ser com auxilio da atual tecnologia.
Dá por conta que completa hoje seus vinte e nove anos de vida, sendo um homem adepto do trabalho árduo, duro, labuta aprendida com o velho que morreu quando ele tinha ainda quinze anos e acabou o deixando com a mãe à própria sorte. Porém, as lições que aprendeu com o pai foram suficientes para que vencesse já que herdou também vontade, bom-senso, disposição além de ser agraciado por uma nata inteligência.
James, porém, teve o seu olhar interrompido da doce reminiscência quando a Maria Luisa aparece pela porta amparada por dois criados. Ele redireciona o seu olhar com pesar enquanto relembra que...
— A Maria Luisa apareceu há cinco anos  tal como uma fadinha na sua vida; repentinamente; sendo um clarão de luz bendita, silueta provocante a fazendo dona de uma beleza estonteante;  sendo menina ainda com sua décima quinta primavera recentemente festejada, mas já sendo responsável como uma mulher de trinta. Ela acompanhava o seu pai Teodoro, também um fazendeiro da região e que veio negociar gados; muitas cabeças. E a graciosa menina surpreendeu ao James pela sua desenvoltura deixando até que o seu pai fosse apenas um simples observador já que tinha mais tino pelos negócios que ele. A danadinha, seguida constantemente pelo olhar do rapaz, negociou como gente grande e cativou o seu coração. Cativou tanto que em cinco meses já estavam casados. Apaixonadíssimos.
No entanto...
Há cerca de trinta e cinco dias um desmaio interrompeu o conto de fadas. O doutor da região assim que examinou deixou o marido deveras preocupado e um simples exame de sangue logo mais confirmou o diagnóstico para a sua jovem esposa: Uma doença incurável.
Está ele indo agora para a capital, com a sua amada, na procura de uma medicina de ponta, na procura de esperanças.

 II-
James providenciou na capital de tudo necessário para a única mulher que ama intensamente: Acomodações de primeira, médicos especializados trazidos de outros centros e remédios. Infelizmente tudo se confirma que é: Quando numa história de “Era uma vez...” entra o “Mas...” começa a peregrinação do sofrimento. O especialista terminando a consulta balbucia no seu ouvido que tudo pode terminar em poucas horas, talvez no máximo em um dia.
Bem sabia o jovem marido que a situação dela era realmente terminal, pois tem coisas e sinais que indicavam ao homem muito observador e para isso não é necessário estudar medicina. Ele, porém, ao ouvir a opinião final do médico se torna pensativo e imediatamente se ajoelha perto da cama. O doutor, muito religioso, procura lhe dar palavras de apoio:
— Faz realmente bem pra vocês dois agora se apoiarem na fé.
James mantendo aparente calma o olha profundamente e lhe responde:
— Eu não acredito em Deus!
 O experiente médico mantém-se calado diante de uma afirmação categórica e definitiva. Antes da sua possibilidade de ainda algo indagar ao jovem ouve uma explicação:
— Eu realmente não acredito em Deus e seja qual for o desfecho com a minha amada já lhe garanto que não mudarei o meu conceito.  Eu, na verdade, acredito na natureza e no ciclo da vida eterna e apaixonante, mas não em Deus. Eu acredito na chuva que cai na hora certa pra fortalecer a terra deixando o prado cultivado riquíssimo de alimento; eu acredito na natureza da Lua que me obriga a colher o bambu na época correta, pois se eu fizer no ciclo lunar errado ele se esfarela como ilusão; eu acredito nas águas dos rios e dos mares como guardiãs dos peixes colocados sobre a minha mesa para saciar a minha fome; eu acredito na bondade e quando assim com ela nos mantemos acabamos recebendo os prêmios adequados como a chegada da minha querida Maria na minha vida, caboclinha jovem e mulher feita que por cinco anos só me fortalece como um homem vencedor. Eu acredito apenas, doutor, na natureza que enfeitou o Ipê-Amarelo com as suas flores no exato momento que decidimos sob a sua sombra que era a hora sagrada de relacionarmos pela primeira vez.
O médico especialista se manteve atento e cativado pela sabedoria do jovem. Arrisca-se a perguntar:
— Se você não acredita em Deus, por que se ajoelhou pra rezar?
O jovem marido responde:
— Porque jamais quebrarei a promessa que fiz a ela, doutor. No primeiro dia que a vi prometi pra mim mesmo que a protegeria; depois confirmei a promessa quando nos amamos sob uma chuva de flores amarelas do velho Ipê; voltei a confirmar quando a pedi em casamento; mais que nunca eu confirmei no momento que descobrimos a doença; confirmei no trajeto até o hospital e confirmei que faria de tudo ao meu alcance momentos antes dela perder a consciência há um dia e meio.
O doutor permanece sem ter o que falar. James permanecendo ajoelhado complementa:
— Eu não acredito em Deus, mas como eu lhe disse, para quem mais eu amo prometi que faria de tudo pra ajudá-la. Eu não sei rezar, porém, vou dizer ao Deus dela que eu até agora não a decepcionei, embora estando agora me sentindo tão impotente. Vou dizer simplesmente pra Ele que faça a sua parte para alguém que muito acredita na sua onipotência. Vou dizer que eu não acredito em milagres, mas que ela sim. Eu cheguei à conclusão que é a última coisa que me resta fazer e falar.

III-
Os filhos, noras, netos, bisnetos e muitos e muitos amigos estão rodeando o túmulo onde o corpo do James aos noventa e dois anos está sendo velado. Todos se uniram e cercaram o Ipê-Amarelo com uma graciosa cerca de bambus colhidos na Lua certa: Foi o desejo dele manifestado pela sua vida toda. A Maria Luisa está presente, saudável, com os seus setenta e quatro anos de uma venturosa vida ao lado do primeiro e único homem quem sempre amou. Ela não chora mais, apenas sente-se a pessoa mais amada do Universo já que viveu ao lado daquele que sempre lhe prometeu proteger: E ele exatamente assim o fez. A eterna mulher enamorada sente a força da família que construíram e sente-se agradecida aos dois Seres mais importantes da sua vida: Ao amado e ao seu Deus; ambos que nunca a deixaram no momento mais difícil da sua vida...
Ambos que nunca a decepcionaram, cada um à sua maneira.