segunda-feira, 19 de outubro de 2015

CRÔNICA - A DOR DA FÉ



(crônica)


Ainda dói o dedo da prima Nina estando ainda chorosa e com razão, já que o seu machucado ainda necessita de cuidados. Aprendemos duas coisas com o seu sofrimento: Onde um cão come não coloque a sua colher e ou em briga de cães ferozes tal qual briga de casal também não meta a mesma colher.
Mas o fato acontecido com ela me remete à uma lição de vida tão bem ministrada por um grande amigo, padre de profissão, jogador de futebol amador e adorador do jogo de truco. Como eu o conheci? Foi num convite de um vizinho há cerca de seis anos para completar o número de participantes num joguinho de futebol de salão. Claro que era apenas uma confraternização de amigos e um deles apresentou o seu primo padre com quarenta e nove anos de idade que eu vou chamá-lo de Mauro evitando revelar sua identidade por puro respeito, pois ele atualmente se encontra no Vaticano seguindo a sua vida missionária, convidado que foi pela equipe do atual papa. E depois de vários encontros eu e ele já éramos amigos e exímios criadores de piadas.

O Padre Mauro é uma peça impar e, para com ele brincar, eu dizia que no tabuleiro de xadrez de Deus ele é um peão, porém, a mais gozada e apaixonante figura. Mauro sempre ria da minha brincadeira e, na verdade ele ri de tudo e de todos, sem ferir ninguém com suas piadas e brincadeiras. Durante o jogo a cada gol que fazíamos ele escolhia um adversário e o convidava para uma confissão dizendo; “eu sei o que você pensou assim que levou o gol e precisa então se confessar”. E ria, também, quando levava um gol falando pra bola que iria depois benzê-la. Mauro era o nosso goleiro e até um bom goleiro.
Depois do jogo, em uma casa pré-escolhida, ocorria o churrasco e vez ou outra o sacerdote nos dizia que estava de olho no primeiro que pecasse com a gula. Mas ele ficava mesmo era de olho no jogo de truco que costumeiramente aconteceria. Mauro não falava palavrão, mas gritava como um pecador e infernizava a todos os perdedores constantemente fazendo, porém, uma cara de autoridade para frustradamente tentar evitar que fosse escorraçado com o mesmo veneno. Ele jamais cometeria o pecado da gula, mas jogar era com ele mesmo.
Eu não gosto de jogar, mas me divertia observando o já amigo Padre Mauro e quando a noite ameaçava chegar, quando estávamos todos na saideira de tudo, era a vez do sacerdote que com uma facilidade de um verdadeiro mestre não perderia nunca a sua oportunidade de dar bons conselhos e interessantes lições. E numa dessas ele nos falou...
— Tudo na vida o que vale é a Fé. A Fé é uma parte do Divino nos dizendo que tudo pode ser conseguido, alcançado. Mauro nos dizia que até na vida ordinária, cada ação realizada só ocorre baseada na nossa Fé, na força que empregamos para usá-la. E acrescentou um fator que me fez meditar sempre a partir da conversa tão proveitosa e era que, até para colocar um prego numa madeira empregamos a nossa Fé. Com o uso da Fé bem empregada nunca nos tornamos homens maus, evitando males maiores, sendo sempre pessoas exemplares e educadas. Um dia, como eu já disse, ele se despediu e foi pra Europa ensinar truco enquanto cumpre lá os seus trabalhos missionários.
Então eu relembro:

— Certa vez eu tendo como observador o meu netinho Jonathan resolvi consertar o seu carrinho de madeira que tanto gostava. Eu ajeitei a madeira e sabia previamente que colocaria quatro pregos sendo um deles maior que os outros acabando assim com as quebras constantes. Três pregos colocados e cada um com a repetência de três pancadas sucessivas, porém, no último e maior prego lembrei-me da lição do amigo Mauro e decidi: Por que não usar a minha Fé para usar num só golpe na missão de pregar? E fiz:
— Até com a atenção redobrada eu segurei o prego firmemente e centrado na força que considerei suficiente apliquei com gosto e fé a tal Fé tão sagrada, pronto para continuar sendo um exemplo de um bom artífice ao neto, além de permanecer um homem educado. E aconteceu que...
— A fé eu tive até demais na força, mas descobri que precisava burilar a Fé da visão certeira ao objeto. É aí que me lembro de Nina; estava também diante de um dedo amassado, violentado e ainda sem ponto cirúrgico.
Pois...
— Que sonora pancada. O dedão instantaneamente parecia um balão sendo inflado lentamente enquanto a unha se enfeitava com um esmalte preto e de um crescente roxo esborrifado além na pele também. Era um janeiro e com certeza a unha ficaria assim enfeitada até o carnaval. Dos meus olhos pingaram dois tipos de lágrimas; no direito as lágrimas eram doces acompanhando o olhar piedoso do netinho querendo dar a maior força pelo meu momento enfrentado e no esquerdo eram salgadas pela dor insuportável.
Mas eu prontamente me lembrei do ensinamento do Padre Mauro que é: a “Fé bem aplicada nos deixa bons e educados”. Foi assim que eu levantei o olhar ao Divino e apenas balbuciei:
— Puxa meu Deus! ho-je eu es-tou sem sor-te.
Foi essa a minha atitude: Acreditem se quiserem.