terça-feira, 15 de setembro de 2015

CRÔNICA - O FLAGRANTE DA IGNORÂNCIA DESCABIDA





O FLAGRANTE DA IGNORÂNCIA DESCABIDA

A crônica é uma forma de escrita que muito realiza aos escritores. Como é um modo de expressão que acima de tudo bem diz sobre a sua opinião do que viu ou pelos fatos ocorridos no cotidiano, cada um procura dar a sua forma especial o que acaba lhe caracterizando o seu estilo. Eu gosto que as minhas crônicas sejam um bate-papo descontraído entre duas pessoas por mais sério que seja o assunto. Eu gosto que seja como reunião happy hour numa gostosa tarde de verão, como bem pode ser naquela tarde fria de inverno numa sala aconchegante regada a café com canela quentinho com bolo de fubá ou, estando caminhando no outono pisando nas folhas secas pelas serras de Ubatuba nos caminhos tão fotografados por Manuel Carmo Vieira. Então é assim que eu convido você leitor a me acompanhar nesse triste fato que ocorreu o mundo.
Inicio com um pergunta. Você conhece Petra Laszlo? Não? Eu também não, mas a vi em fotos e vídeos. É sobre ela, uma desconhecida mundialmente e agora não mais que eu quero falar. Mas para falar dela preciso falar sobre armas. Não sobre as armas poderosas, destruidoras, verdadeiras “sossega-leões”, mas sobre as boas, as armas que estão nas mãos de muitos, algumas delas nas nossas também, tão poderosas quanto as destruidoras bombas usadas nos conflitos militares hoje em dia.
Explico-lhe:
— Tem uma arma que no mercadinho ao lado da sua casa custa centavos de real. Ela é feita de plástico, conhecida como esferográfica e que na mão de qualquer governante, autoridades bem-intencionadas e possuidoras de caráter ilibado pode muito fazer para melhorar a vida de milhares de pessoas. Outras armas poderosas são os livros, jornais, e os meios de comunicações em massa. Podemos, porém, ir além e relacionar uma máquina fotográfica ou filmadora que nas mãos, principalmente de artistas fotógrafos e cinegrafistas profissionais transformam fatos dos cotidianos numa boa arma em apenas um click  ou numa simples tomada de imagens, que muitas vezes mudam opiniões, acabam conflitos, expõem uma verdade que permanecia oculta e manipulada.  Aí está onde eu coloco a moça Petra Laszlo, uma cinegrafista de profissão que com certeza é muito capaz no que faz, pois pertence a uma equipe de grande e importante empresa de comunicação no seu país; Hungria.
— A jovem Petra, vejam bem, tinha tudo pra cumprir a sua missão com mestria: Nas mãos ela tinha uma filmadora de última geração, estando num campo desolado e melancólico na fronteira entre a Hungria e a Sérvia, juntamente com muitos imigrantes sedentos de paz e respeito embora humilhados como párias, tal como o Fernão Capelo Gaivota que assim se tornou simplesmente por uma decisão sua de voar mais alto na procura de dignidade e crescimento. Nas imagens acrescentam-se muitos policiais e militares, com certeza preparados para conflitos, mas que contiveram suas armas e suas brutalidades diante de um grupo de pessoas indefesas e que em momento nenhum, em todos os vídeos, agrediram alguém. Nesse cenário cinematográfico perfeito a profissional, como eu disse, tinha tudo para mostrar ao mundo com a sua arte e com a sua arma as imagens que até poderiam despertar o mundo para a triste situação que muitos estão passando. Mas...  
— Mas a cinegrafista decidiu fazer caca; fazer merda. Eu uso das duas palavras, caca e merda, pra que fique bem demonstrada a minha indignação já que ela deixa de cumprir a sua função de formadora de opiniões pelo simples fato de ter uma ideologia conservadora e por pertencer a um partido político que é contra o recebimento de imigrantes no território do seu país.  Então a energúmena em um momento vomita a sua frustração existencial em uma menina refugiada com talvez treze anos de idade, desferindo-lhe um pontapé na altura dos seus joelhos. Não contente, covardemente, — por talvez possuir a certeza que as pessoas não revidariam quaisquer agressões —, ela passa também uma rasteira em um senhor que carregava uma criança enquanto corria protegendo o seu ente querido, talvez o seu filho ou talvez o seu neto.
Pronto... A minha retina registrou mais um flagrante triste que corre o mundo. Nele, no flagrante, eu vejo a desprovida de humanidade segurando a filmadora inerte sem registrar as dores de várias vítimas que bem poderiam alertar as autoridades inúteis de plantão no planeta Terra, enquanto sentia certamente alegria interior por ter realizado a sua cota diária de maldade. Registrei, também, a queda de uma criança inocente e de um adulto que podia muito bem estar cometendo somente o pecado — para a moça — de ser um defensor do seu filho ou neto. Eu vi explicitamente: Humilhação descabida.
Querido leitores, eu tenho um precioso amigo que há muito me acompanha, Inácio de Aruanda, que me ensinou o advento dessa era para as novas gerações de muitos desafios, mas que será, por outro lado positivo, uma oportunidade de ouro pra todos desenvolverem um atributo maravilhoso chamado Compaixão, que nos deixará longe de julgamentos. Alertou-me, ele, várias vezes pra não insistir em combater o pecador, pois eis que será sempre uma luta inócua, utópica, ingrata. Ensinou-me que devemos combater o pecado, nas suas várias formas, nas suas nascentes que iniciam certamente numa principal chamada: Ignorância. Então para a Petra desejo o seu reencontro com a Compaixão.
Eu sei que os anos dourados devam ser construídos e conquistados, mas reconhecendo que os caminhos são dualidades onde o bem e o mal, a alegria e a tristeza, a maldade e a compaixão só existem — e para sempre existirão — pelo motivo de o ser humano confrontar a dualidade até como uma forma de defesa naturalmente imposta pela vida. A Vida só é bela por existir a dualidade e consequentemente eu estarei, quem sabe, muitas e muitas vezes a cometer ainda erros também. Sempre cometemos aqui e ali erros observáveis primeiramente pelos outros e somente depois acabamos reconhecendo-os e corrigindo-os. Esse hiato é o nosso momento ignorante. Mas...
Mas, mesmo sujeito a isso, eu tenho a certeza que não me deixarei se transformar em uma expressão de maldade chamada Petra Laszlo.