segunda-feira, 26 de outubro de 2015

CRÔNICA - CRIANÇAS E FUTURO


CRIANÇAS E FUTURO

  
O carro para no semáforo.
O sinal vermelho se faz presente.
Sempre existirá em nossa vida um alerta de pare:
“Pare, pense e reflita.” Parece dizer sempre: “Você não veio ao mundo para deixá-lo pior do que o encontrou.” Muitas vezes simplesmente não damos a devida atenção, quase sempre assim fazemos. A vida atribulada nos tornam insensíveis ao que nos rodeia.
E a luz vermelha ainda se fazendo presente...
Logo dois meninos se aproximam carregando caixas com doces:
― Vai uma balinha aí moço? ― foram dizendo com todos os pulmões. Pulmões, porém, que ainda aparentam fortes pela pura necessidade de sobrevivência. Por quê? Porque os estômagos já estão dilacerados pela mísera comida diária, a pele dilacerada pela fuligem dos automóveis e pela falta de banho, afinal, os chafarizes há muito foram desativados, enquanto seus corpos pequenos são aproveitados por pedófilos em troca de pequenas moedas.
― Vai uma balinha aí moço? Ajuda eu, é só um real.
Um real! A dignidade não vale um real. A vida não vale um real. Faço menção de tirar do bolso alguma coisa. O quê? Uma moeda ou uma esperança pra eles, quem sabe? Ou talvez a minha falta de cidadania? Com certeza:
— Não somos todos culpados de existirem esquinas, mas somos todos culpados por existirem esquinas com meninos-de-rua através da nossa ausência nos problemas do país, dos votos eleitorais sem nenhum critério, da preocupação constante em ser aquele com vantagem sempre.
E...
A minha ação é bruscamente interrompida pelo taxista que imediatamente fecha as janelas deixando aos dois sem ação provocando um intenso constrangimento. Sinto-me também constrangido, mas nesse tempo de tantos assaltos não posso culpar a atitude desse trabalhador. Ainda mais que ele acabara de me dizer que fora assaltado quatro vezes durante o trabalho e por outras duas na sua residência. Na verdade a violência também sempre acaba nos tornando insensíveis para tudo o que nos rodeia.
Mas... Os olhos azuis de um dos meninos me paralisam mostrando na sua cativante cor alguma lição. E ela ocorre...
— A lição me vem com uma misteriosa ausência de sentidos físicos, mas não mental... Imediatamente sou levado pela imaginação ao futuro e vi o planeta Terra destruído pela insensatez do homem visualizando claramente que habitávamos o espaço sideral em naves gigantescas, milhares delas para cada nação sobrevivente e cada uma com a sua finalidade.
E antes de poder lutar para voltar para a crua realidade:
― Existiam as naves-metrópoles, as laboratoriais e de pesquisas, as agricultáveis, como também as escolares entre tantas outras sempre protegidas por modernas e poderosas naves militares para a defesa. E para circular entre todas usávamos pequenas, silenciosas e rápidas aeronaves que serviam de táxis.
Fiquei atônito ao ver a clareza da visão que vivenciei...
E fascinado eu fiquei:
— Mas o que mais me fascinou em toda essa imaginação futurista é que não existiam ruas e como consequência não existia meninos e meninas que hoje se humilham pelas esquinas sem o mínimo de esperança no futuro. Estavam todos felizes acompanhados de pessoas interessadas no bem-estar de cada um. E cada um sorria aquele sorriso que só tem; os que têm um futuro certo pela frente.
Eu quis questioná-los. Perguntar se poderia com eles ficar para brincar e aprender tudo novamente. Ansiava não perder uma nova oportunidade de me tornar algo, renascendo.
Mas...
Na abertura do semáforo o movimento do carro me trás de volta à realidade e ao azul daqueles olhos tão pequenos, tão pequenos como os seus donos que agora vão ficando nas esquinas das suas próprias vidas. Mas com certeza eu retomo a realidade sentindo no meu íntimo uma enorme necessidade de contribuir para modificar a sorte desses meninos que, como já foi falado por muitos, serão os pais dos homens. E com certeza serão...
 Que oxalá permita Deus que eu encontre forças e condições para conseguir algo tão nobre.
 Eu lutarei para não deixar que tudo fique só na imaginação.