segunda-feira, 19 de outubro de 2015

PROSA POÉTICA - SÚPLICAS D'ÁFRICA


SÚPLICAS D’ÁFRICA

  

O ponto de encontro é em algum lugar entre Cabo Verde e Boa Esperança. Elas chegam do interior como sendo as Brisas-Coletoras que foram buscar algo junto aos sudaneses como iorubás, nagôs, geges e minas e...
Tornaram-se preciosas Brisas-Coletoras também para os  fulas e mandes, além de que...
Tornaram-se Coletoras das indagações Banto vindas dos angolas, congos, cambindas, benguelas e moçambiques.
São, na realidade, Coletoras-Mensageiras das perguntas que nunca se calam, dos lamentos eternamente doloridos, das indagações aflitas e perenes da nação primaz na criação do planeta Terra.
Assim que cumpre o papel necessário elas se ajuntam e vorticelizam, vorticosas se fazem porque então se faz necessário tornar tal qual vento sagrado só que dessa vez sem as velas negreiras para soprar, sem corpos mortos para se; ver jogando e jogado ao mar.
Elas precisam se tornar único vento muito forte, pois eis que se soprará pelo dolorido caminho antigamente percorrido e carregado pelo peso da verdade dos povos escravizados pelos próprios patrícios gananciosos; pelo peso das indagações dos seus descendentes que os aguardam esperançosos pelo um possível retorno. Terá que ser forte o suficiente para levantar as ondas da procura até agora incerta do perguntar: Onde estão? Como estão? Quem? — Os meus eternos filhos, ora! — responde a mãe África sempre esperançosa.
Deverá se tornar sempre forte vento, pois estará carregado também das lágrimas do outrora, lágrimas que os séculos jamais secarão; aquelas lágrimas tornadas densas, eis que, nunca rolaram de alegria pelas faces negras já que era necessário se mostrar, embora sendo escravo, ser um ser resoluto perante um destino desconhecido e amedrontador.
E ele agora como vento forte, então, se lança mar adentro ouvindo os gritos das injustiças seculares impregnados no passado cumprindo assim o destino: Chegar à costa e bater no pau-brasil que nunca se enverga. Logo...

Deve se dividir em preciosas brisas novamente para melhor ser ouvido espalhando-se mansamente território brasileiro adentro. — Em cada farfalhar finalmente aúdes! — e assim serão acolhidas como súplicas e lamentações dos negros como sussurros dos gritos enviados de lá:
― Onde estão os nossos descendentes negros dos negros aprisionados aqui, lançados em porões sempre imundos, acorrentados, escravizados, humilhados e violentados? ― Perguntaram quando da passagem da Brisa-Coletora lá, os sudaneses dos dialetos iorubas, nagôs, geges e minas.
Mais perguntas aflitivas:
― Como está o sangue dos nossos sangues, daqueles que sob os grilhões nefastos, hediondos e que hoje pais dos pais aí, mas aqui tirados jovens filhos ainda transvestidos de crianças guerreiras aprendizes e por terras tupiniquins foram espalhados em vastas distâncias? Que homens e mulheres se tornaram agora já livres?  Estão realmente livres? Que pais de homens se tornaram? Que filhos geraram?  Afoitamente inquiriram, veementemente, pela eterna ansiedade dos séculos vividos sem os seus entes queridos; os fulos e mandês.
E com sofreguidão pelo aguardo de boas respostas, inquiriram também:
― E voltarão vocês pra cá, pra terra africana, pro colo de Mãe África, para as terras dos seus direitos adquiridos, para as suas ancestralidades protegidas por nós no aguardo de todos que querem reassumir suas condições natas de guerreiros negros? Seus lugares estão guardados...  Bradaram para a Brisa o Banto todo, com as suas vozes sábias de povo milenar como angolas, congos, cambindas, benguelas e moçambiques.
E...
E todos os negros brasileiros que nunca se envergam como os arabutãs, pois são desde outrora forjados no orgulho de uma raça que mesmo uma horrenda escravidão não derrotou jamais, ouvem cada um a sua mensageira e devem enviar as suas respostas contando as histórias de seus antepassados: Relatando as suas agruras, seus descontentamentos e reveses, mas... Mas florear com novas palavras criadas e de dialetos nascidos nas suas alegrias também.
Além...
Devem contar para as Brisas-Coletoras acolá de quem pergunta a sua bela história, para elas que logo mais se juntarão entre São Vicente e Porto Seguro logo após retornarem dos longínquos rincões que nos abrigam — exatamente nós — os descendentes negros aqui e procurados lá num além-mar, para novamente se fazer num sopro único, vento forte outra vez no oceano e pesado agora pelos relatos da raça negra brasileira. E no retorno criando novos turbilhões até nas águas do passado que donde se faz necessário extirpar o seu lado sombrio e, chegar triunfante à raiz negra, por Cabo Verde e Boa Esperança, entre seus limites para como brisas novamente se dividirem espalhando-se África toda agora com o nome de Brisas-Contadoras-das-Histórias-do-Novo-Povo que falam da nação africana que no Brasil fincou partes das suas raízes e que mandou orgulhosamente suas respostas...
Respostas de uma parte da mesma nação Mãe África, mas única embora distante.
Respostas somente dos seus descendentes daqui e com uma própria maneira de viver: Impar...
Mas com o mesmo orgulho...
De ser negro e com a dupla nacionalidade...
Africana e brasileira.