segunda-feira, 9 de novembro de 2015

CRÔNICA - O SUSTO





O SUSTO


Eu muito gostava de todo dia ter que realizar a viagem nos trens de subúrbios para o meu local de trabalho. O percurso realizado sempre entre a cidade de Jundiaí e a nossa capital; São Paulo. Até os dias de hoje não existe um local tão imutável — alguns dizem que são os ônibus, mas eu não concordo — para que muitos e muitos trabalhadores lutem ferrenhamente para dividir o mesmo espaço sendo que é nessa luta que se acaba fazendo inimigos ou amigos.
Mas deixo a todos uma lição preciosa:
— Para se criar amigos ou inimigos nesse meio de transporte bastava a formação de grupos: Para o nosso grupo felizmente prevalecia; sempre a amizade e aos inimigos a indiferença. Com essa ideologia era um pulo para que muitos viessem ao nosso lado sendo, o grupo, então, sempre ativo e alegre: “Para cada dia basta o seu mal”. Não adianta nunca levantar cada dia para ser um gladiador.
E para passar o tempo evitando que a viagem se tornasse estressante os grupos iam se formando pela sua afinidade. Alguns jogavam palitos; outros o jogo de dama, diversos escolhiam as cartas de baralho, boa parte preferia a leitura e muitos se limitavam a observar: como eu sempre fazia...
Então:
— Nós, os observadores, como uma regra constitucional, tínhamos que atentamente colecionar gestos e trejeitos. Era a regra básica a ser respeitada: Não poderia jamais ser de maneira jocosa ou fofoqueira. O objetivo era visar o resultado em piadas de bom-gosto, mas sempre veladas para o grupo como poderia se transformar também em assuntos que só receberiam a sua importância no seu tempo oportuno.
Claro que como bons brasileiros que somos as mulheres seriam as mais reparadas pela sua beleza ou, pela sua falta ou, pela simpatia que seria sempre somente uma terceira opção.
Ressalto para vocês: A parada entre a maioria das estações era cerca de um minuto; quanto muito. E nesse tempo, certa vez, aconteceu um fato que eu acho ser merecedor dessa crônica:
— Eu fui avisado pelo grupo a observar uma linda mulher que estava na plataforma. Ela aguardava o seu trem com os seus cabelos longos, olhos azuis, corpo esbelto. Aquele tipo de mulher que levou a se confirmar as palavras do poeta que a beleza é fundamental. Todos os homens do grupo rezavam até para que a parada levasse horas e assim poderíamos juntar todos os dados possíveis para que comentássemos por dias sobre essa visão estonteante; com certeza divina...
Mas, graças a esse mesmo divino Criador, agradecemos pela parada ser por pouco tempo e explico o porquê para o seu pronto entendimento:
De repente os olhos da menina esbugalharam assustadoramente. Ao mesmo tempo a boca se contorceu para o lado direito quase alcançando a sua orelha. Em toda a sua pele em volta dos olhos se formou sulcos. Pensamos até que ela tinha nos feito careta para nos repreender pela indiscreta observação! Porém... Foi por décimos de segundos e, após milésimos de repouso, outro espasmo semelhante e concluímos: Era o famoso cacoete que pegou todos em hilariante surpresa...
Que susto!
Estupefatos...
Estupefator mais que provocante.
E...
E com a composição já em andamento todos se entreolharam. Conforme o ritmo do sacolejar das rodas nos trilhos iniciaram os risos e antes da composição alcançar a sua velocidade máxima já estávamos todos gargalhando.
E eu concluí imediatamente...
— Se o poeta estivesse presente ele com certeza diria entre uma dose e outra que a beleza é fundamental, sim; mas sem cacoetes.